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AMOR
Clarice Lispector
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana
subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar.
Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia
satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam,
tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais
completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava
estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos
pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara
lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o
calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na
mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida
conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque,
cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com
os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício.
Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente
de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores
que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força,
inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo
engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os
meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo
vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os
dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se
desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que
tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma
aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das
coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera
a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o
tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os
filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior
parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos
emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia:
abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que
viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria.
O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu
alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com
felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma
vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde,
quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada
membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis
limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não
havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava
com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía
então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do
lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e
as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com
sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos
deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se
voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das
raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida.
Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais
úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável.
Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um
ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de
descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado.
De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma
coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava
chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam
jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava
o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma
na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da
mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir,
sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana
olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas
continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma
arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de
tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o
condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o
bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida.
Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com
dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria
entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de
jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego
interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando
inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora
da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o
bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos
trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal
estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a
tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio
partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma
estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por
quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana
respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do
acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil,
perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam,
as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe
que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo
equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de
sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir.
Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao
banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas
pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso
com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara
mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua
Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as
grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando
chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte
havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o
vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto.
Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no
filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana
caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não
explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa
das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e
podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a
que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava
tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea
doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na
fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com
pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por
um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da
noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de
medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida
que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais
misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde
localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os
portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia
ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco
de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração.
Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra
dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas
surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já
mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava
rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave
demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada
parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso
gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam
no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar,
pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho
secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços
secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O
banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam
as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma
aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E
a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os
dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram
percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a
repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha
nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia.
Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea
subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A
moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele,
estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias
boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe
pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A
decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas,
ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela
vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais
adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito
que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na
sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia.
Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara
culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou
pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim
em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões
fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu
espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um
desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito
— o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia,
mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de
casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os
vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era
essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe
um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo
era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava.
Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida
era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava
com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com
aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe
provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo.
Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? —
agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio
da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se
seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos
que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as
costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro
assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu
coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança
mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do
quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais
recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que
tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na
crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não
olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não
era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O
homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado
para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo
e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte
do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta?
Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã.
Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se
banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah!
era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora
verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais
profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E,
estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico
chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o
cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este
sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na
sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o
jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e
constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior
do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para
mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e
asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na
cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno
assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam
na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros
inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente.
Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os
bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz,
os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão
crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a
quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os
filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião
estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos
ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas,
brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las
a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros.
Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas
janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não
discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o
coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno
deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos
antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas,
ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava
adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias?
Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e
pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia
aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias
boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa!
pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do
café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com
olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção.
Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu
ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa
tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico,
triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era
seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a
consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do
espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se
deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
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A CARTOMANTE
Machado de Assis
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu
e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que
dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869,
quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante;
a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em
nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta,
antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as
cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei
que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim
declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não
era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu
tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim,
não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e
fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança;
em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele
mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por
essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava
ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em
vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste
mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a
cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava
tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria
arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi
supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe
incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair
toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele,
como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida,
e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em
nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento;
limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e
ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em
levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita
estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a
estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais
que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do
encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana
de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo,
onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem
para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e
nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram
amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo
entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico;
mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe
arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da
província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a
magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa
para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão.
Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos
deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não
desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos
gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais
velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente
e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho
que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática.
Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a
natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência,
nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade.
Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os
dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos
sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e
ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A
verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua
enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e
bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta
dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam
juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e
jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco
menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos
teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam
antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um
dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e
de Rita apenas um cartão com um vulgar comprimento a lápis, e foi então
que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os
olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes,
ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela
primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o
carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde.
Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe
estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou
atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de
mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!
Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos,
estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e
pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam
ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser
as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima,
que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de
todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear
as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo
respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou
astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram
inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio,
uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos
dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa,
correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do
procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança,
e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda
algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão
apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito
de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras
palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é
preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é
ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o
anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio.
Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para
comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for
igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou
a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se
pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela
é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até
que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo
divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou
denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas
semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de
necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu
Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa;
preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu
logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório;
por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse
realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas
cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem
demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama,
Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e
escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo.
Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso
repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se
de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo.
Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem
descobertos parecia-lhe cada vez mais verosímil; era natural uma denúncia
anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que
Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem
motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o
bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou
então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido,
com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso
falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um
tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma
hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o
que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha
medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse,
nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa,
vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da
Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a
trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso
estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção.
O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim
da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava
atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o
obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à
esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita
consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das
cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam
abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do
indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A
agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas
morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as
superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira
travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse.
E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era
a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe,
com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se
no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto,
fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a
carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo
fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido
sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..."
E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As
pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu
opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da
mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase
do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu
e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao
cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a
escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão
pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não
aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade
fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma,
duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse
que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma
escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma
salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do
fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes
aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e
sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a
pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e
tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as
baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo
dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra,
com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e
disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O
senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá
alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que
esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os
longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os
maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo
tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras.
Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria
nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era
indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do
amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A
cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse
ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa.
Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se
também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com
passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las,
mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação
comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não
sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a
carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os
olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz
bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é
escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira,
e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela
embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante
alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo
achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote
largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas
traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou
a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta
de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele
lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que
fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou
qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o
incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos,
reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela
adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um
terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora
vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do
rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de
ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a
mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá,
vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida,
lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os
antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente,
pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar
pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até
onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação
do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se,
empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa.
Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta
abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições
decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando,
Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé,
estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com
dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
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